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52 números no ano



C U L T U R A

Havana. 16 de maio de 2003

Prêmios do Festival de Cinema Pobre

PARA o cineasta Humberto Solás, o recém-finalizado 1º Festival de Cinema Pobre, realizado na cidade de Gibara, na província de Holguín, foi um grande desafio porque é um evento «com uma infra-estrutura de novo tipo realizado numa zona que não tem experiência nestes encontros, além de não ser um evento regional, nem local, mas sim internacional.

«O festival supôs milhares de preocupações e aprendizagem» - disse - «mas do ponto de vista conceitual tudo correu muito bem. «A convocatória teve grande acolhida, pois a nossas mãos chegaram perto de 350 documentários e 90 longas-metragens, e para o concurso de roteiros inéditos recebemos quase 100, e você tem que imaginar que não só vêem da América Latina e Cuba, mas também do mundo todo, em diversas línguas».

Para o diretor de Lucía, um clássico do cinema cubano e latino-americano, «o belo de tudo isto é a premissa condicionante para documentários, longas-metragens e roteiros: tinham que ser obras realizadas com muito poucos recursos, quer dizer, um filme médio latino-americano não poderia concorrer em nosso Festival. Falo do Terceiro Mundo. Atualmente, na realização de um filme médio no Brasil, no México ou na Argentina, investe-se entre US$ 500 mil e US$ 700 mil. Estes filmes não podemos aceitá-los. É curioso, na verdade, porque são fitas que provêm do nosso contexto idiomático e cultural, e contudo exigimos que as que participem sejam as do chamado gueto, o cinema marginal, que se faz com muito poucos recursos, com grande inventiva, com sacrifício notável».

Solás ratifica seus postulados para este Cinema Pobre. «É por isso que seria difícil encontrar uma co-produção, uma fita que pressuponha compromissos. Eu descobri isso enquanto concebia este Festival que na medida em que os orçamentos sejam mais reduzidos existe uma espécie de eqüivalência relacionada com a liberdade do criador. Menos compromissos, mais liberdade. Menos compromissos com outras fontes financeiras, mais identidade e mais legitimidade do discurso do autor.

O destacado realizador cubano responde o por quê desse critério: «Porque se você faz um filme do qual participam mais dois países, obrigatoriamente passa por um processo de domesticação, você tem que comprazer diferentes culturas. Geralmente, os filmes não se fazem em co-produções entre nós mesmos, quer dizer, não existe um filme Cuba-Brasil, ou Cuba-México, ou Cuba-Argentina. Tanto para nós quanto para eles, há muitas possibilidades de diálogo, de um discurso comum, mas quando você faz uma fita com a Holanda, com a Alemanha, com a França, pois certamente se não há enfrentamento cultural - porque não se trata disso, se supõe que a co-produção é para criar um discurso comum - indiscutivelmente está obrigado a tomar em conta aspectos que não são próprios da sua idiossincrasia, sua identidade cultural, nacional».

«De que se trata? O cinema cosmopolita, o cinema digamos universal, entre aspas logicamente, se faz nos grandes centros culturais, e deixando de lado os eufemismos, o cinema de Hollywood, é abrangente, globalizador, que tenta imiscuir-se não só nas contradições da vida local deles, mas também aborda todo tipo de contextos, de culturas, geralmente não da melhor maneira, salvo no caso dos grandes autores, que sempre há, e das pessoas que têm uma consciência cultural mais forte em Hollywood. Mas se você deseja fazer um cinema local, um cinema nacional, um cinema de identidade, eu recomendaria que fizesse um projeto dramatúrgico que não implicasse grandes recursos econômicos para que você defenda a autenticidade do seu projeto e seu mérito e seu verdadeiro valor, esse é o propósito do Festival».

Este encontro em Gibara organizado por Solás, além de um corpo teórico tem um espírito pragmático. «Para que fazer outro Festival se existem centenas no mundo se não lhe damos outro caráter? Onde assenta especificamente esse novo caráter? No fato de que nós, e queremos aumentar as cotas de benefício todos os anos, vamos entregar prêmios em tecnologia. Estarão os diplomas, as estatuetas, uma espécie de câmera rudimentar, mas do que mais gosto da idéia é que o roteirista vai fazer sua fita, o diretor que a fez receberá o eqüivalente em tecnologia para poder continuar sua carreira».

Solás coloca-se como exemplo: «quando no meio da crise econômica da cinematografia cubana, produto de todo o que conhecemos, eu pude fazer um projeto que era irrealizável de querer fazê-lo em 35 mm, e pude fazê-lo em cinema digital, falo de Miel para Oshún. Toda esta experiência levou-me à conclusão de que tínhamos de fazer uma trincheira em Cuba, o país ideal para isso, onde os autores, não só cubanos, mas do mundo todo, encontrassem a possibilidade de participar de um festival onde, se sua obra é selecionada como a melhor, significa algo concreto, a possibilidade de continuar na carreira».

Por exemplo, a Escola Internacional de Cinema, Televisão e Vídeo de San Antonio de los Baños outorga, segundo Solás, «o prêmio mais belo, uma bolsa para o autor latino-americano autodidata mais relevante dentro do concurso, mas o abrimos a outros contextos, porque ainda em meio dos países reitores, economicamente falando, existem grupos sociais que não podem aspirar a uma profissão tão elitista como é o cinema. Quando eu comecei a fazer cinema podia-se ser autodidata, porém cada dia exigem mais a certidão de ter passado uma escola de cinema para poder entrar na indústria do cinema. Esse prêmio é uma idéia belíssima, aqui podem concretizar seu sonho de serem realizadores. Receber, em virtude do sacrifício com que fez sua obra e demonstrou seu talento, uma formação acadêmica.

Todos os prêmios têm uma concreção, um apoio tecnológico, por exemplo passar a fita de digital a 35 mm; os Laboratórios Eclair da França doam dez cópias dessa futura fita, um prêmio grandioso; em documentário, outorga-se o Cesare Zavattini, que consiste em US$ 3 mil, sempre em tecnologia, seja lá um computador ou uma câmera de vídeo, ou freqüentar durante um mês um quarto de edição.

Humberto Solás deseja que passados dois ou três Festivais «consigamos que tanto o prêmio de documentário quanto o de longa-metragem signifiquem poder fazer uma obra maior». (Mireya Castañeda)


OS PRÊMIOS

Ficção:

Grande Prêmio à Melhor Obra de Ficção ex aequo: Vaga-Lume, de Gilson Vargas (Brasil) e Last Ball, de Peter Callahan (EUA)

Especial ao Melhor Longa-metragem de Ficção: Tiempo real, de Fabrizio Prada (México)

Especial ao Melhor Curta-Metragem de Ficção: La maldita circunstancia, de Eduardo Eimil Mederos (Cuba)

Documentários:

Grande Prêmio Cesare Zavattini: Siyamo, de Mahmoud Reza Sani (Irão)

Especial do Júri ao Melhor Longa-Metragem Documentário: Los últimos zapatistas, héroes olvidados, de Francesco Taboada (México)

Especial do Júri ao Melhor Documentário: Marangmotxingo Mirang, das crianças Ikpeng para o mundo, de Nafugu Yuwipo, Karane e Kumare Txicao (Brasil)

Roteiros:

Grande Prêmio: Prometeo deportado, de Fernando Mieles Peña (Equador)

Especial do Júri: Al fondo de la tabla, de Javier Hick (Argentina)

De la crítica (Fipresci): Last Ball, de Peter Callahan

Da Escola de Cinema de San Antonio: a comissão comunicou que: «... está no dever de assinalar que, de seu ponto de vista, nenhuma das obras apresentadas satisfaz completamente as exigências da Escola... mas Revolución, de Juan Pablo Martin Rosale, contudo, mostra habilidade no critério de adaptação audiovisual, bem como precisão no desenho da encenação. Estas razões fazem com que seu diretor seja merecedor de um Estímulo Especial: ele poderá participar de um ou vários ateliês internacionais na Escola Internacional...»

Prêmio do público: La novia de Lázaro, de Fernando Merinero (Espanha)

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