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Prêmios
do Festival de Cinema Pobre
PARA o
cineasta Humberto Solás, o recém-finalizado 1º
Festival de Cinema Pobre, realizado na cidade de
Gibara, na província de Holguín, foi um grande
desafio porque é um evento «com uma
infra-estrutura de novo tipo realizado numa zona que
não tem experiência nestes encontros, além de
não ser um evento regional, nem local, mas sim
internacional.
«O
festival supôs milhares de preocupações e
aprendizagem» - disse - «mas do ponto de vista
conceitual tudo correu muito bem. «A convocatória
teve grande acolhida, pois a nossas mãos chegaram
perto de 350 documentários e 90 longas-metragens, e
para o concurso de roteiros inéditos recebemos
quase 100, e você tem que imaginar que não só
vêem da América Latina e Cuba, mas também do
mundo todo, em diversas línguas».
Para o
diretor de Lucía, um clássico do cinema
cubano e latino-americano, «o belo de tudo isto é
a premissa condicionante para documentários,
longas-metragens e roteiros: tinham que ser obras
realizadas com muito poucos recursos, quer dizer, um
filme médio latino-americano não poderia concorrer
em nosso Festival. Falo do Terceiro Mundo.
Atualmente, na realização de um filme médio no
Brasil, no México ou na Argentina, investe-se entre
US$ 500 mil e US$ 700 mil. Estes filmes não podemos
aceitá-los. É curioso, na verdade, porque são
fitas que provêm do nosso contexto idiomático e
cultural, e contudo exigimos que as que participem
sejam as do chamado gueto, o cinema marginal, que se
faz com muito poucos recursos, com grande inventiva,
com sacrifício notável».
Solás
ratifica seus postulados para este Cinema Pobre.
«É por isso que seria difícil encontrar uma
co-produção, uma fita que pressuponha
compromissos. Eu descobri isso enquanto concebia
este Festival que na medida em que os orçamentos
sejam mais reduzidos existe uma espécie de
eqüivalência relacionada com a liberdade do
criador. Menos compromissos, mais liberdade. Menos
compromissos com outras fontes financeiras, mais
identidade e mais legitimidade do discurso do autor.
O
destacado realizador cubano responde o por quê
desse critério: «Porque se você faz um filme do
qual participam mais dois países, obrigatoriamente
passa por um processo de domesticação, você tem
que comprazer diferentes culturas. Geralmente, os
filmes não se fazem em co-produções entre nós
mesmos, quer dizer, não existe um filme
Cuba-Brasil, ou Cuba-México, ou Cuba-Argentina.
Tanto para nós quanto para eles, há muitas
possibilidades de diálogo, de um discurso comum,
mas quando você faz uma fita com a Holanda, com a
Alemanha, com a França, pois certamente se não há
enfrentamento cultural - porque não se trata disso,
se supõe que a co-produção é para criar um
discurso comum - indiscutivelmente está obrigado a
tomar em conta aspectos que não são próprios da
sua idiossincrasia, sua identidade cultural,
nacional».
«De
que se trata? O cinema cosmopolita, o cinema digamos
universal, entre aspas logicamente, se faz nos
grandes centros culturais, e deixando de lado os
eufemismos, o cinema de Hollywood, é abrangente,
globalizador, que tenta imiscuir-se não só nas
contradições da vida local deles, mas também
aborda todo tipo de contextos, de culturas,
geralmente não da melhor maneira, salvo no caso dos
grandes autores, que sempre há, e das pessoas que
têm uma consciência cultural mais forte em
Hollywood. Mas se você deseja fazer um cinema
local, um cinema nacional, um cinema de identidade,
eu recomendaria que fizesse um projeto dramatúrgico
que não implicasse grandes recursos econômicos
para que você defenda a autenticidade do seu
projeto e seu mérito e seu verdadeiro valor, esse
é o propósito do Festival».
Este
encontro em Gibara organizado por Solás, além de
um corpo teórico tem um espírito pragmático.
«Para que fazer outro Festival se existem centenas
no mundo se não lhe damos outro caráter? Onde
assenta especificamente esse novo caráter? No fato
de que nós, e queremos aumentar as cotas de
benefício todos os anos, vamos entregar prêmios em
tecnologia. Estarão os diplomas, as estatuetas, uma
espécie de câmera rudimentar, mas do que mais
gosto da idéia é que o roteirista vai fazer sua
fita, o diretor que a fez receberá o eqüivalente
em tecnologia para poder continuar sua carreira».
Solás
coloca-se como exemplo: «quando no meio da crise
econômica da cinematografia cubana, produto de todo
o que conhecemos, eu pude fazer um projeto que era
irrealizável de querer fazê-lo em 35 mm, e pude
fazê-lo em cinema digital, falo de Miel para
Oshún. Toda esta experiência levou-me à
conclusão de que tínhamos de fazer uma trincheira
em Cuba, o país ideal para isso, onde os autores,
não só cubanos, mas do mundo todo, encontrassem a
possibilidade de participar de um festival onde, se
sua obra é selecionada como a melhor, significa
algo concreto, a possibilidade de continuar na
carreira».
Por
exemplo, a Escola Internacional de Cinema,
Televisão e Vídeo de San Antonio de los Baños
outorga, segundo Solás, «o prêmio mais belo, uma
bolsa para o autor latino-americano autodidata mais
relevante dentro do concurso, mas o abrimos a outros
contextos, porque ainda em meio dos países
reitores, economicamente falando, existem grupos
sociais que não podem aspirar a uma profissão tão
elitista como é o cinema. Quando eu comecei a fazer
cinema podia-se ser autodidata, porém cada dia
exigem mais a certidão de ter passado uma escola de
cinema para poder entrar na indústria do cinema.
Esse prêmio é uma idéia belíssima, aqui podem
concretizar seu sonho de serem realizadores.
Receber, em virtude do sacrifício com que fez sua
obra e demonstrou seu talento, uma formação
acadêmica.
Todos
os prêmios têm uma concreção, um apoio
tecnológico, por exemplo passar a fita de digital a
35 mm; os Laboratórios Eclair da França doam dez
cópias dessa futura fita, um prêmio grandioso; em
documentário, outorga-se o Cesare Zavattini, que
consiste em US$ 3 mil, sempre em tecnologia, seja
lá um computador ou uma câmera de vídeo, ou
freqüentar durante um mês um quarto de edição.
Humberto
Solás deseja que passados dois ou três Festivais
«consigamos que tanto o prêmio de documentário
quanto o de longa-metragem signifiquem poder fazer
uma obra maior». (Mireya Castañeda)
OS
PRÊMIOS
Ficção:
Grande
Prêmio à Melhor Obra de Ficção ex aequo:
Vaga-Lume, de Gilson Vargas (Brasil) e Last
Ball, de Peter Callahan (EUA)
Especial
ao Melhor Longa-metragem de Ficção:
Tiempo real, de Fabrizio Prada (México)
Especial
ao Melhor Curta-Metragem de Ficção:
La maldita circunstancia, de Eduardo Eimil
Mederos (Cuba)
Documentários:
Grande
Prêmio Cesare Zavattini:
Siyamo, de Mahmoud Reza Sani (Irão)
Especial
do Júri ao Melhor Longa-Metragem Documentário:
Los últimos zapatistas, héroes olvidados,
de Francesco Taboada (México)
Especial
do Júri ao Melhor Documentário:
Marangmotxingo Mirang, das crianças Ikpeng para
o mundo, de Nafugu Yuwipo, Karane e Kumare
Txicao (Brasil)
Roteiros:
Grande
Prêmio:
Prometeo deportado, de Fernando Mieles Peña
(Equador)
Especial
do Júri: Al
fondo de la tabla, de Javier Hick (Argentina)
De la
crítica (Fipresci):
Last Ball, de Peter Callahan
Da
Escola de Cinema de San Antonio: a comissão
comunicou que: «... está no dever de assinalar
que, de seu ponto de vista, nenhuma das obras
apresentadas satisfaz completamente as exigências
da Escola... mas Revolución, de Juan Pablo
Martin Rosale, contudo, mostra habilidade no
critério de adaptação audiovisual, bem como
precisão no desenho da encenação. Estas razões
fazem com que seu diretor seja merecedor de um Estímulo
Especial: ele poderá participar de um ou
vários ateliês internacionais na Escola
Internacional...»
Prêmio
do público:
La novia de Lázaro, de Fernando Merinero
(Espanha)
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