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I N T E R N A C I O N A I S

Havana. 22 de Agosto, de 2012

Estados Unidos no apocalipse?

Dalia González Delgado

Na capa da revista mais prestigiosa do establishment estadunidense, a Foreing Affairs, destacava uma pergunta, na edição de dezembro de 2011: ”Será que os EUA acabaram?”

São muitos os que acham que os EUA, até há pouco vistos como um colosso que dominava o mundo, estão em decadência.

Segundo o historiador britânico Paul Kennedy, especialista em relações internacionais, esse país “está ocupando novamente seu lugar natural” no planeta, depois de quase 70 anos de domínio extraordinário e artificial, a partir de 1945. Não há volta atrás possível, pelo menos não à época de Truman e Eisenhower, o mundo mudou”.

Ficaram atrás os tempos em que 85% ou mais das reservas de divisas internacionais consistiam em notas verdes (dólares). Unido a isto, o projeto de integração europeu colapsou. “A Ásia se dispõe a dar um passo na frente, enquanto a Europa vira coro distante”, considera o autor de The Rise and Fall of the Great Powers (Auge e queda das grandes potências).

Por sua vez, o reconhecido intelectual norte-americano Noam Chomsky, afirma que “a decadência que agora preocupa não é um fenômeno recente. Essa decadência data de finais da Segunda Guerra Mundial, quando os EUA possuíam metade das riquezas do mundo e uma incomparável segurança e alcance global”.

“Em 1970, a riqueza estadunidense despencou em 25%; ainda colossal mas muito menor que quando a guerra terminou”.

No interior do país, o “sonho americano” está ficando no esquecimento. A partir dos anos 70 houve uma mudança na economia. Planejadores privados e estatais começaram a subcontratar produção no estrangeiro, impulsionada, em parte, pela diminuição dos benefícios na manufatura nacional.

Segundo Chomsky, essas decisões iniciaram um ciclo maligno, pois o capital se concentrou dramaticamente em 0,1% da população, provocando, ao mesmo tempo, a concentração do poder político.

Entretanto, para a maioria, os salários reais se estagnaram e as pessoas começaram a ter cargas trabalhistas, dividas insustentáveis e “bolhas” repetidas, desde os anos de Reagan, quando foram criadas fortunas de papel que, inevitavelmente, desapareciam quando explodiam, sendo os perpetradores resgatados pelos contribuintes.

“Todos os impérios têm um final”, afirma o também historiador britânico Eric Hobsbawm. “Se alguma coisa tenho aprendido é que os grandes impérios se desintegram a grande velocidade. Vivi a queda dos grandes impérios coloniais. Vivi a tentativa dos alemães de estabelecerem um império na Europa e, talvez, no mundo todo: o Terceiro Reich, para o qual prognosticavam mil anos de vida, e que não perdurou. Vivi a grande revolução mundial, que deveria durar para sempre, mas não foi assim”.

A ASCENSÃO DA CHINA

Enquanto os EUA “despencavam”, do outro lado do mar “nascia” uma potência. E esse não é só um critério defendido entre os especialistas. Segundo um estudo do Pew Research Center, realizado no ano passado, a maioria dos entrevistados, em 15 das 22 nações, pensa que a China substituirá ou já substituiu a nação nortenha como primeira superpotência. Essa idéia foi especialmente recorrente na Europa ocidental, fundamentalmente entre 72% dos franceses.

Entre os estadunidenses, a percentagem das pessoas com a ideia de que a China chegará a substituir ou já substituiu os Estados Unidos aumentou de 33%, em 2009, para 46%, em 2011.

Em 1991, quando o filósofo e geopolítico Imad Fawzi Shueibi falou sobre essa possibilidade no seu livro The New World and Political Order (A Nova Ordem Politica Mundial), parecia uma análise impossível de crer.

Após 21 anos, tem mais argumentos para defender a idéia de que “o fato de que a Rússia e China levantem sua voz, levou esses dois países a desempenharem o papel de motor na atual dinâmica do mediterrâneo oriental, o qual significa o fim da história estadunidense na região”.

O também presidente do Centro de Estudos Estrangeiros e Documentação de Damasco defende a possibilidade de uma “nova ordem multipolar, baseada em dois eixos, sobre cada um dos quais se encontrariam vários pólos. Só que o eixo sino-russo seria ascendente, enquanto o outro seria descendente”.

Nisto coincide com o politicólogo estadunidense Zbigniew Brzezinski, que acha pouco possível que o mundo fique sob o domínio dum único sucessor, nem sequer da China. Brzezinski foi conselheiro de Segurança Nacional do ex-presidente James Carter e é considerado um dos mais prestigiosos analistas em política exterior, em nível mundial.

 Entretanto, Narushige Michishita, professor do Instituto Nacional de Estudos Políticos de Tóquio e assessor do governo japonês em temas de segurança, opina que “em termos relativos, os Estados Unidos estão começando a declinar, em comparação com a China”.

É quase seguro que o PIB chinês será superior, graças ao tamanho de sua população e ao seu impressionante ritmo de crescimento econômico. Mas se levamos em conta a receita per capita, passariam décadas antes de a China atingir os EUA.

Talvez por isso, Lee Kuan Yew, ex-primeiro ministro de Cingapura, opina que embora a China “faça suar tinta os EUA”, não vai superar seu poderio global, pelo menos durante a primeira metade deste século.

Agora bem, poderá existir algum conflito EUA-China que vire enfrentamento militar? Realmente não sabemos, mas existe o risco.

Para o doutor Imad Shueibi, Pequim e Moscou agem com precaução para prevenir uma guerra mundial, embora sejam possíveis sangrentos conflitos regionais.

Shueibi também destaca que “as grandes potências não morrem em seus leitos”. O maior perigo está em que estes países possuem armas nucleares.

“Algumas das vulnerabilidades dos EUA são muito óbvias”, comentou à AP Dimitri Trenin, especialista russo em políticas de segurança e diplomacia. “O tema da dívida, regulamentações financeiras fracas, desigualdade social que afeta a classe média...”

Trenin, diretor do Centro Carnegie de Moscou, prognostica que, de qualquer forma, os Estados Unidos continuarão exercendo enorme influência por varias décadas, embora questionasse a capacidade da elite política desse país para responder acertadamente aos acontecimentos mundiais.

Chomsky considera que embora o poder de Washington esteja diminuindo, ainda é esmagadoramente maior que o de qualquer outro.

O renascimento da Rússia e o despertar da China parecem levar a uma Nova Ordem Internacional. Falar de uma era pós-estadunidense não é só a projeção dum desejo ou um simples ponto de vista político. 

Agora bem, como vai ser esse processo de “decadência” e o que acontecerá depois?

Por agora, somente podemos especular. O importante é que está na mesa de debates um tema impensável até há poucos anos.

 

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