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Só TEXTO / Assinatura jornal impreso

I N T E R N A C I O N A I S

Havana. 19 de Juhlo, de 2012

Fundos ilícitos nos bastidores da política francesa

Fiódor Lukiánov

NICOLAS Sarkozy. A polícia realizou uma batida na casa e no gabinete do ex-presidente Nicolas Sarkozy, duas semanas depois de que perdera a imunidade presidencial, de uma maneira intencionalmente visível.

Nicolas Sarkosy e seus enredos com a justiça.
Nicolas Sarkosy e seus enredos com a justiça.

A investigação sobre o financiamento ilegal da campanha eleitoral de Sarkozy, por parte da corporação L ‘Oreal, começou em 2010, derivando, para surpresa de todos, no mais badalado caso de Lilliane Bettencourt, uma idosa dona do império dos cosméticos, cuja família terminou envolvida em fofocas internas e direitos hereditários.

Mediante uma gravação das conversas telefônicas, tornada pública por seu mordomo, soube-se que uma das mulheres mais ricas do mundo sonegava supostamente impostos por somas consideráveis, recebendo, além disso, vantagens tributárias por milhões de euros do ex-ministro do Trabalho, Eric Woerth, intimo colaborador de Sarkozy.

Depois disto, a ex-contadora de Bettencourt, Claire Thibout, manifestou que os políticos franceses de tendências conservadoras, incluído Nicolas Sarkozy, recebiam na mansão de Bettencourt, envelopes com dinheiro, enquanto Woerth, que em 2007 era o tesoureiro da União do Movimento Popular, recebeu 150 mil euros para a campanha eleitoral de Sarkozy.

O financiamento ilegal das campanhas eleitorais é o calcanhar-de-aquiles dos políticos franceses, tanto conservadores como socialistas. Recentemente, o predecessor de Sarkozy no posto de presidente, Jacques Chirac, recebeu uma pena de dois anos, mas por problemas de saúde não pôde estar presente nas audiências judiciais nem cumprir condenação num centro penitenciário.

Chirac foi reconhecido culpado de criar, na segunda metade dos anos 90 do século passado, postos de trabalho fictícios na prefeitura de Paris, entidade que dirigiu durante quase 20 anos. Os salários dos empregados inexistentes incrementavam as contas do partido. Um processo parecido foi indiciado contra Alain Juppé, colaborador de Chirac, e até há pouco ministro dos Assuntos Exteriores, no governo de Sarkozy.

Os socialistas tampouco têm uma imagem muito melhor: durante a presidência de François Mitterrand (1981-1995), mentor do atual chefe de Estado, François Hollande, a petroleira estatal Elf Aquitaine, quase oficialmente, servia de fonte de fundos para as administrações públicas.

Uma vergonhosa mistura de interesses particulares, políticos, estatais e comerciais foi revelada, no inicio do ano 2000, durante a investigação do caso Elf. Christine Deviers-Joncourt, amante de um dos socialistas mais famosos da França, Roland Dumas, estava envolvida no assunto. Ele negou todas as acusações e finalmente conseguiu sair impune da situação mas, posteriormente, em 2007, foi julgado e condenado a dois anos de prisão incondicional, por apropriação indevida de verbas.

Há pouco, também aconteceu uma história que revela a maneira em que se misturam os assuntos de caráter duvidoso dos mais importantes partidos da França: em 2008 foram devolvidos ao ex-político de tendências socialista e magnata, Bernard Tapie, de maneira extrajudicial, quase 300 milhões de euros. A decisão foi tomada pela ministra das Finanças, nessa época, e atualmente diretora do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde.

Tapie, homem de negócios, especializado na capitalização e revenda de importantes empresas (durante algum período foi co-proprietário da Adidas) era dono do famoso clube de futebol Olympique e ministro num governo de socialistas.

Em 1990, foi enviado ao cárcere por pactuar os resultados dos partidos, o que afetou sua possível carreira política, tornando-o num fervente admirador de Nicolas Sarkozy.

Precisamente, a este estreito vínculo, os analistas pensam que se deve a estranha decisão do governo francês de apoiar o empresário, no litígio entre Tapie e a entidade Credit Lyonnais, que se encontrava na falência e anteriormente tinha estado controlada pelo Estado. Tapie acusava o banco de estafa durante a venda de Adidas. O papel de Lagarde no assunto continua sem ser esclarecido.

Os ataques públicos a Sarkozy têm uma explicação lógica: são a outra face de seu próprio estilo político, baseado numa inquebrantável relação de interesses comerciais e estatais. Os especialistas coincidem em que esta foi a razão pela qual os eleitores decidiram não apoiar Sarkozy. E como seu comportamento sempre tem sido arrogante e altaneiro, não é de surpreender que haja quem deseje ajustar contas ao ex-presidente. Tudo indica que existem delitos para incriminá-lo.

O problema, contudo, não radica na personalidade de Sarkozy, mas sim na atual cultura política que permite que sejam eliminadas as fronteiras entre o particular e o comum, entre o comercial e o estatal. Esta é uma das sequelas da erosão que está acabando com as instituições, característica destes tempos.

As experiências do passado nos ensinam que duplos padrões morais e uma corrupção sistemática sempre têm sido sinais próprios da política em geral, não só da francesa. Mas o ambiente globalizado e universal concede a este fenômeno uma nova dimensão e as discrepâncias ideológicas terminam sumindo, juntamente com as normas éticas.

François Hollande está numa posição de vantagem, resultando-lhe fácil submeter a uma chuva de críticas seu antecessor e prometer justiça social. Não em vão uma de suas principais promessas eleitorais era a introdução dum imposto de 75% sobre a riqueza, com recursos destinados à reconstrução da economia nacional.

Pouco poderia surgir desta iniciativa e, se apesar de tudo, o presidente insiste, o mais seguro é que apareçam dados que confirmem seus vínculos com estes "cidadãos mais ricos do país". Não é um multimilionário como Strauss-Khan, mas tampouco é pobre.

De maneira que a vida política continua e com ela, o desfile das carcaças ocultas no armário. (Extraído da Argenpress)
 

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