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52 números no ano



C U L T U R A

Havana. 4 de Fevereiro de 2003

12ª FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE HAVANA
Diário de um dia qualquer em
San Carlos de la Cabaña

• O presidente Fidel Castro participou da inauguração • A obra poética de Pablo Armando Fernández • Convidada de honra: a Comunidade Andina de Nações

POR MIREYA CASTAÑEDA / FOTOS DE AHMED VELAZQUEZ — do Granma Internacional

A fortaleza colonial de San Carlos de la Cabaña, Patrimônio da Humanidade, é, sem dúvida, um espaço fantástico para percorrer.

História, arquitetura, espetacular paisagem de Havana. Agora, em fevereiro, tem a riqueza de ser a sede da Feira Internacional do Livro, que, conseqüentemente, é muito mais que um lugar onde os editores expõem e o público compra livros.

A Feira é um lugar de cultura, de encontro com escritores, músicos, artistas das artes plásticas, cientistas, historiadores.

Isso significa que visitar a Feira um dia qualquer é ter a possibilidade de escolher entre vários acontecimentos, que as vezes decorrem simultaneamente.

Sempre é uma experiência que enriquece do ponto de vista cultural.

Para tentar oferecer ao leitor um panorama da festa do livro (31 de janeiro-9 de fevereiro) fizemos um diário de uma dessas jornadas: sábado, dia 2, que começou às 10h da manhã com uma breve estada na sala de imprensa, situada na rua Mayor, para uma troca de apontamentos e perguntas entre colegas.

GRANDE POETA

A decisão do Granma Internacional neste caso não tinha dúvidas: a sala José Antonio Portuondo (o Teatro da Comandância) para o colóquio sobre a obra poética de Pablo Armando Fernández, Prêmio Nacional de Literatura, a quem é dedicada a Feira.

No painel, participaram mais dois prêmios nacionais de Literatura, César Lopez e Nancy Morejón, quem leu um texto onde descreve Pablo Armando como «arquétipo de poeta, que tem a estampa mais apurada dum poeta de qualquer reino, porém não é mais do que um cubano típico, considerando-o um dos poetas mais requintados e representativos da lírica cubana do século 19».

Chegamos à Rua Artelleria, em seus pavilhões há inúmeros estandes de alguns dos 110 expositores (de 21 países) além de outros cem cubanos presentes na Feira.

A aglomeração de pessoas foi a bússola. Na entrada, um dos estandes com livros para crianças (que, felizmente, são os mais procurados) e diante dele o da editora Capitán San Luis.

CONTRA O TERRORISMO

Em 31 de janeiro, a editora Capitán San Luis tinha feito o lançamento de um dos títulos mais interessantes da Feira, Cicatrices en la memoria, onde marcou presença o presidente Fidel Castro.

«É nosso livro mais importante» — disse ao Granma Internacional Teresita Fornaris, publicista da Editorial — «nele aparecem 18 narradores escrevendo sobre terrorismo contra Cuba. No prólogo, aparece bem explicado pelo poeta e ensaísta Roberto Fernández Retamar.

«Este desafio é assumido por 18 destacados artistas plásticos do País, recriando, a partir da ficção, do testemunho novelado e da crônica literária, alguns dos acontecimentos mais dramáticos relacionados com o terrorismo, que tem deixado marcas inesquecíveis na memória coletiva da nação cubana».

Eis os 18 escritores e os 18 artistas: Eduardo Heras/Bonachea; Waldo Leyva/Julio Girona; Miguel Mejides/García Peña; Aymara Aymerich/Alicia Leal; Alexis Díaz-Pimienta/Eduardo Abela Torrás; Emilio Comas/Flora Fong; Aida Bahr/Antonio Vidal; David Mitrani/Juan Moreira; Mylene Fernández/Adigio Benítez; Marilyn Bobes/Rafael Morante; Enrique Núñez Rodríguez/Rafael Zarza; Juan Carlos Rodríguez/Carlos Montes de Oca; Alberto Guerra/Choco; Adelaida Fernández de Juan/Zaida del Río; Jesús David Curbelo/Mendive; Rogelio Riverón/José Omar Torres; Daniel Chavarría/Edel Bordón, e Marta Rojas/Rancaño.

«Mudamos o perfil editorial» — acrescentou Teresita Fornaris — «e agora estamos inseridos na batalha das idéias, sobretudo com a coleção Denuncia, com a qual publicamos, por exemplo, Operación Mangosta (a maior operação da CIA contra Cuba) e Confesiones de Frayle (uma história real dum cubano filtrado na Fundação Cubano-Americana), dois sucessos de venda. «Estamos preparando um álbum sobre terrorismo, com imagens sobre esses fatos, e o testemunho das vítimas, além das palavras dos próprios terroristas, que deve ser publicado neste ano».

Depois dum alto para apreciar uma ampla exposição de fotografias sobre Gabriel García Márquez, organizada pelo Ministério das Relações Exteriores da Colômbia e pela embaixada colombiana em Havana (e à espera do lançamento das memórias do Prêmio Nobel de Literatura Vivir para contarla), chegamos ao estande MBR Representaciones (México, Espanha e Estados Unidos), onde conversamos com Cláudia Costa, delegada da Feira.

« É a primeira vez que nos convidam e estamos muito satisfeitos. Nossos temas são os livros de referência de estudos teológicos, dicionários bíblicos, livros de grego, hebreu, Bíblias, obras da área de espiritualidade, auto-ajuda e de devoção».

ROMANCES JUNTO AO MAR

Do panorama bíblico encontramos alguém mais apegado à terra, Peter Jenkins, presidente de CBC The Caribbean Book Co., quem expressou que é a quarta vez que participa da Feira, «pois trabalhamos aqui em Cuba (através da Câmara Cubana do Livro), vendemos cursos de inglês, dicionários, textos de ciência, romances, como Harry Potter ou O senhor dos anéis. Aqui há muito interesse por esses livros. Em 2000, recebemos o primeiro prêmio pelo melhor estande. A feira sempre é produtiva para nós, mais uma oportunidade no ano para vender aos ministérios, às empresas e ao público em geral, é um evento muito importante».

A CBC assinou um convênio com a Ediciones Cubanas para que os romances que não sejam vendidos na Feira sejam levados às livrarias de Varadero e doutros centros turísticos. «Uma idéia nova e muito interessante, tanto comercial quanto para os turistas, que poderão comprar um romance durante sua estada para ler junto do mar ou da piscina».

Na praça San Francisco há dezenas de pessoas, onde a Ediciones B, do México, presente na Feira há quatro anos, vende rapidamente seus livros para crianças, mas, nós vamos para a área A onde estão Pathfinder, Oceano, as editoras das diferentes províncias cubanas e as da Comunidade Andina.

Seth Stevenson é de Nova York e veio representando a Pathfinder Press. «Nossos livros são nossas armas políticas como comunistas nos EUA, na Suécia, Islândia, Austrália, Canadá.

«Temos uma equipe internacional. Trazemos como novidade o livro Malcolm X fala à juventude, que inclui seus discursos.

Para viajar a Cuba organizaram-se em Londres, onde têm um escritório, «pois não podemos viajar como editores a partir dos EUA», mas, de qualquer forma, «publicamos muitos autores cubanos, por exemplo, temos um novo livro de Tete Puebla, Marianas en combate, e também temos publicado do Che Guevara, de Fidel e de Victor Dreke.

A COMUNIDADE ANDINA E A ALCA

Williamns Kastillo representa várias editoras do Equador.

«Trazemos ficção, narrativa, poesia, informação cultural. Sobretudo, livros da Casa da Cultura Equatoriana Benjamin Carrión, com seu fundo editorial Pedro Jorge Vera».

Convidados de honra? «Para nós é uma experiência inédita, um grande compromisso com o povo de Cuba, e muito fabuloso porque nos permite projetar a imagem de nossos países».

Movimento editorial? «Infelizmente somos países onde não existe uma cultura da leitura e nesse sentido é complicado. Os custos de produção são elevados e para a maioria dos nossos compatriotas é difícil aceder aos livros, mas, a Casa da Cultura está fazendo uma campanha nacional em prol do livro e da leitura e está publicando livros em várias coleções com um preço absolutamente módico, que quase não arca com os custos, mas temos o apoio do Governo».

Expectativas? «Sabemos que em Cuba não era possível vender estes livros, decidimos que tudo seria com caráter de exposição para fazer promoção da presença e do pensamento nacionais, e quando a Feira concluir, todos os livros (1 500) serão doados à Casa das Américas e à Biblioteca Nacional José Martí.

Essa é nossa expectativa, que tudo seja difundido a nível do povo cubano».

Durante o percurso pela exposição da arte andina, o presidente da Câmara Cubana do Livro, Jorge Luna, convidou o Granma Internacional para participar da conversação com Francisco Parejas, delegado pessoal do secretário-geral da Comunidade Andina das Nações.

Parejas foi um dos oradores na cerimônia de inauguração da Feira, onde marcou presença o presidente Fidel Castro e onde o ministro da Cultura, Abel Prieto, se referiu a quanto tem crescido o encontro do livro «até virar, mais do que evento comercial, verdadeira festa da cultura, que faz parte da revolução educacional e cultural atual».

Em sua conversa na sala Carlos J. Finlay, Parejas expressou que a Comunidade Andina tem 115 milhões de habitantes, mas, destes 54% vivem na pobreza.

Explicou algumas estruturas da Comunidade como o Parlamento Andino e o Banco de Cooperação Andina de Fomento, mas, advertiu acerca da necessidade de fortalecer a cooperação.

«Em 2005, é a data limite para acabar o processo de integração andina. Coincide com a data da Alca, que é uma espécie de Espada de Dâmocles ou de pressão, mas nos tem ajudado muito à integração que se torna cada vez mais urgente, tanto a andina quanto a latino-americana toda».

O delegado andino também falou da integração cultural e pôs como exemplos a Universidade Andina (com sedes em Sucre, La Paz e Quito) e um projeto de História Andina «que infelizmente tem sido a causa das guerras entre nós. Não é fácil escrever uma história comum, portanto o projeto é uma verdadeira contribuição à cultura da integração».

O LIVRO DA AMIZADE

Quando acabou a conversa de Parejas, voltamos rapidamente para a Rua Mayor, pois na antiga Capela da Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, muito bonita em seu estilo barroco, teria lugar o lançamento, pela editora La Memoria, na coleção Homenajes, (do Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau) do livro De nube en nube, de Luis Rogelio Nogueras, Witchy (1945-1985).

Tudo começou igual que numa capela, um silêncio reverente para escutar uma gravação onde o próprio Witchy lê seu poema Ama al cisne salvaje, e depois escutar outro poeta, Silvio Rodríguez, com a canção La tonada inasible, que dedicou ao amigo (« Há quinze segundos/que o poeta morreu/ e há quinze séculos/ que notamos sua ausência»).

O diretor do Centro Cultural Pablo, Victor Casaus, explicou que se trata dum livro que tem a ver com a memória, pois resgata os textos jornalísticos, as crônicas de Luis Rogelio Nogueras «que não é obra menor, mas sim que fala das suas raízes, com muito talento» e acrescentou que o livro foi possível pela participação de muitos amigos.

Além de poder ler os artigos de Nogueras, no De nube en nube incluem-se textos de Silvio e Casaus e uma cronologia da vida e da obra de Witchy.

PRÊMIO NACIONAL DE LITERATURA 2002

Na sala Nicolás Guillén teve lugar um momento importante para a cultura cubana: a entrega do Prêmio Nacional de Literatura 2002 a Lisandro Otero, cerimônia onde estiveram presentes o presidente do Parlamento de Cuba, Ricardo Alarcón; o ministro da Cultura, Abel Prieto e inúmeras personalidades da cultura cubana.

Em seu discurso de agradecimento, Otero lembrou que nos últimos oito anos viveu no México. «Nessa etapa peregrina sempre estive em Cuba, respirei nosso ar, imaginei o horizonte de ‘yagruma’ em cada paisagem. Tampouco deixei de apoiar o projeto de nação que começou com os anos da Revolução».

Disse que no começo, quando respondeu à imprensa acerca da significação do prêmio para ele, dizia que era «uma maneira de me agradecer pelo que tinha feito... não só os livros, ma também a difusão cultural. Depois pensei que o prêmio era uma forma de ganhar consciência do muito que devo agradecer».

Entre esses agradecimentos, Otero cita a Universidade de Havana, seus estudos na França, a luta clandestina, Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, muitos amigos e sua família.

«Também devo agradecer a Fidel Castro por me ter ensinado a pensar de maneira diferente, por me mostrar que cuidar do bem alheio pode ser mais satisfatório que atender o próprio, por nos ter levado com audácia por um caminho cheio de obstáculos e contradições, por nos ensinar o valor da firmeza e do ímpeto incessante, por criar um espaço de dignidade onde temos vivido com honra».

TESOURO DE PAPEL

A penumbra de uma noite de inverno dizia-nos que não poderíamos chegar ao pavilhão Infantil Tesouro de Papel, mas, lá se mantém para desfrute e educação dos leitores mirins.

Acabou assim uma jornada qualquer em San Carlos de la Cabaña, sede da Feira Internacional do Livro de Havana.


O fascismo posto ao nu no livro de Hugo Chávez

O presidente Fidel Castro participou, em 2 de fevereiro, do lançamento da segunda edição do livro El golpe fascista contra Venezuela, com discursos e comparecimentos do presidente desse país, Hugo Chávez.

Realizado pela Ediciones Plaza, o volume insere as reiteradas denúncias do presidente venezuelano, inclusive seu discurso recente no 3º Fórum Social Mundial de Porto Alegre, Brasil.

O chanceler cubano Felipe Pérez Roque disse que o referido texto era uma arma de combate e de pensamento, destacando que hoje o golpismo está totalmente derrubado nessa nação, graças ao heroísmo do povo venezuelano, liderado por Hugo Chávez.

Pérez Roque refletiu acerca dos fatos ocorridos em abril e dezembro passado na pátria de Bolívar e precisou que nessa nação vem sendo analisada a solução dum conflito, não só para a Venezuela, mas também para a América Latina.

«Cada vez será mais difícil impor a esse povo os desígnios e interesses das multinacionais e da oligarquia», expressou.

O embaixador da Venezuela em Havana, Julio Montes, destacou que a batalha contra o golpismo foi definitivamente ganha. Explicou que já foi suspenso o que os golpistas erradamente chamaram de greve, o que constitui uma declaração de derrota, e ao mesmo tempo destacou o aprofundamento do processo bolivariano.

Publicado em tempo recorde em duas ocasiões, apena 48 horas, este testemunho sobre a verdade ocorrida nessa nação, representou o surgimento da editora Ediciones Plaza, que levou a termo este projeto por iniciativa do presidente Fidel Castro.

Pedro Alvarez Tabío, diretor dessa editora, anunciou que está sendo preparada essa edição ampliada em inglês, francês, italiano, alemão russo e árabe.

O presidente Hugo Chávez elogiou de Caracas a edição do livro, feita em Cuba, noticiou a Prensa Latina. O chefe do Estado parabenizou a rapidez com a qual foram incluídas no dito volume suas últimas intervenções públicas. •

Pies de Foto...

Um público nutrido participa da festa do livro em San Carlos de la Cabaña

O presidente Fidel Castro durante a inauguração da Feira. À esquerda, o ministro da Cultura, Abel Prieto

Pablo Armando Fernández, Prêmio Nacional de Literatura, a quem foi dedicada esta Feira

Exposição de fotografias de Gabriel García Márquez

Os livros infantis que traz Ediciones B são muito solicitados

Na Capela da Fortaleza Victor Casaus apresenta De nube en nube

Paisagem de Havana vista da Fortaleza

 

 

 

 

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