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12ª
FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO DE HAVANA
Diário de um
dia qualquer em
San Carlos de la Cabaña
• O
presidente Fidel Castro participou da inauguração
• A obra poética de Pablo Armando Fernández •
Convidada de honra: a Comunidade Andina de Nações
POR
MIREYA CASTAÑEDA / FOTOS DE AHMED VELAZQUEZ
—
do Granma Internacional
A
fortaleza colonial de San Carlos de la Cabaña,
Patrimônio da Humanidade, é, sem dúvida, um
espaço fantástico para percorrer.
História,
arquitetura, espetacular paisagem de Havana. Agora,
em fevereiro, tem a riqueza de ser a sede da Feira
Internacional do Livro, que, conseqüentemente, é
muito mais que um lugar onde os editores expõem e o
público compra livros.
A
Feira é um lugar de cultura, de encontro com
escritores, músicos, artistas das artes plásticas,
cientistas, historiadores.
Isso
significa que visitar a Feira um dia qualquer é ter
a possibilidade de escolher entre vários
acontecimentos, que as vezes decorrem
simultaneamente.
Sempre
é uma experiência que enriquece do ponto de vista
cultural.
Para
tentar oferecer ao leitor um panorama da festa do
livro (31 de janeiro-9 de fevereiro) fizemos um
diário de uma dessas jornadas: sábado, dia 2, que
começou às 10h da manhã com uma breve estada na
sala de imprensa, situada na rua Mayor, para uma
troca de apontamentos e perguntas entre colegas.
GRANDE
POETA
A
decisão do Granma Internacional neste caso
não tinha dúvidas: a sala José Antonio Portuondo
(o Teatro da Comandância) para o colóquio sobre a
obra poética de Pablo Armando Fernández, Prêmio
Nacional de Literatura, a quem é dedicada a Feira.
No
painel, participaram mais dois prêmios nacionais de
Literatura, César Lopez e Nancy Morejón, quem leu
um texto onde descreve Pablo Armando como
«arquétipo de poeta, que tem a estampa mais
apurada dum poeta de qualquer reino, porém não é
mais do que um cubano típico, considerando-o um dos
poetas mais requintados e representativos da lírica
cubana do século 19».
Chegamos
à Rua Artelleria, em seus pavilhões há inúmeros
estandes de alguns dos 110 expositores (de 21
países) além de outros cem cubanos presentes na
Feira.
A
aglomeração de pessoas foi a bússola. Na entrada,
um dos estandes com livros para crianças (que,
felizmente, são os mais procurados) e diante dele o
da editora Capitán San Luis.
CONTRA
O TERRORISMO
Em 31
de janeiro, a editora Capitán San Luis tinha feito
o lançamento de um dos títulos mais interessantes
da Feira, Cicatrices en la memoria, onde
marcou presença o presidente Fidel Castro.
«É
nosso livro mais importante» — disse ao Granma
Internacional Teresita Fornaris, publicista da
Editorial — «nele aparecem 18 narradores
escrevendo sobre terrorismo contra Cuba. No
prólogo, aparece bem explicado pelo poeta e
ensaísta Roberto Fernández Retamar.
«Este
desafio é assumido por 18 destacados artistas
plásticos do País, recriando, a partir da
ficção, do testemunho novelado e da crônica
literária, alguns dos acontecimentos mais
dramáticos relacionados com o terrorismo, que tem
deixado marcas inesquecíveis na memória coletiva
da nação cubana».
Eis os
18 escritores e os 18 artistas: Eduardo
Heras/Bonachea; Waldo Leyva/Julio Girona; Miguel
Mejides/García Peña; Aymara Aymerich/Alicia Leal;
Alexis Díaz-Pimienta/Eduardo Abela Torrás; Emilio
Comas/Flora Fong; Aida Bahr/Antonio Vidal; David
Mitrani/Juan Moreira; Mylene Fernández/Adigio
Benítez; Marilyn Bobes/Rafael Morante; Enrique
Núñez Rodríguez/Rafael Zarza; Juan Carlos
Rodríguez/Carlos Montes de Oca; Alberto
Guerra/Choco; Adelaida Fernández de Juan/Zaida del
Río; Jesús David Curbelo/Mendive; Rogelio
Riverón/José Omar Torres; Daniel Chavarría/Edel
Bordón, e Marta Rojas/Rancaño.
«Mudamos
o perfil editorial» — acrescentou Teresita
Fornaris — «e agora estamos inseridos na batalha
das idéias, sobretudo com a coleção Denuncia, com
a qual publicamos, por exemplo, Operación
Mangosta (a maior operação da CIA contra Cuba)
e Confesiones de Frayle (uma história real
dum cubano filtrado na Fundação Cubano-Americana),
dois sucessos de venda. «Estamos preparando um
álbum sobre terrorismo, com imagens sobre esses
fatos, e o testemunho das vítimas, além das
palavras dos próprios terroristas, que deve ser
publicado neste ano».
Depois
dum alto para apreciar uma ampla exposição de
fotografias sobre Gabriel García Márquez,
organizada pelo Ministério das Relações
Exteriores da Colômbia e pela embaixada colombiana
em Havana (e à espera do lançamento das memórias
do Prêmio Nobel de Literatura Vivir para contarla),
chegamos ao estande MBR Representaciones (México,
Espanha e Estados Unidos), onde conversamos com
Cláudia Costa, delegada da Feira.
« É
a primeira vez que nos convidam e estamos muito
satisfeitos. Nossos temas são os livros de
referência de estudos teológicos, dicionários
bíblicos, livros de grego, hebreu, Bíblias, obras
da área de espiritualidade, auto-ajuda e de
devoção».
ROMANCES
JUNTO AO MAR
Do
panorama bíblico encontramos alguém mais apegado
à terra, Peter Jenkins, presidente de CBC The
Caribbean Book Co., quem expressou que é a
quarta vez que participa da Feira, «pois
trabalhamos aqui em Cuba (através da Câmara Cubana
do Livro), vendemos cursos de inglês, dicionários,
textos de ciência, romances, como Harry Potter
ou O senhor dos anéis. Aqui há muito
interesse por esses livros. Em 2000, recebemos o
primeiro prêmio pelo melhor estande. A feira sempre
é produtiva para nós, mais uma oportunidade no ano
para vender aos ministérios, às empresas e ao
público em geral, é um evento muito importante».
A
CBC assinou um convênio com a Ediciones Cubanas
para que os romances que não sejam vendidos na
Feira sejam levados às livrarias de Varadero e
doutros centros turísticos. «Uma idéia nova e
muito interessante, tanto comercial quanto para os
turistas, que poderão comprar um romance durante
sua estada para ler junto do mar ou da piscina».
Na
praça San Francisco há dezenas de pessoas, onde a
Ediciones B, do México, presente na Feira há
quatro anos, vende rapidamente seus livros para
crianças, mas, nós vamos para a área A onde
estão Pathfinder, Oceano, as editoras das
diferentes províncias cubanas e as da Comunidade
Andina.
Seth
Stevenson é de Nova York e veio representando a
Pathfinder Press. «Nossos livros são nossas armas
políticas como comunistas nos EUA, na Suécia,
Islândia, Austrália, Canadá.
«Temos
uma equipe internacional. Trazemos como novidade o
livro Malcolm X fala à juventude, que
inclui seus discursos.
Para
viajar a Cuba organizaram-se em Londres, onde têm
um escritório, «pois não podemos viajar como
editores a partir dos EUA», mas, de qualquer forma,
«publicamos muitos autores cubanos, por exemplo,
temos um novo livro de Tete Puebla, Marianas en
combate, e também temos publicado do Che
Guevara, de Fidel e de Victor Dreke.
A
COMUNIDADE ANDINA E A ALCA
Williamns
Kastillo representa várias editoras do Equador.
«Trazemos
ficção, narrativa, poesia, informação cultural.
Sobretudo, livros da Casa da Cultura Equatoriana
Benjamin Carrión, com seu fundo editorial Pedro
Jorge Vera».
Convidados
de honra? «Para nós é uma experiência inédita,
um grande compromisso com o povo de Cuba, e muito
fabuloso porque nos permite projetar a imagem de
nossos países».
Movimento
editorial? «Infelizmente somos países onde não
existe uma cultura da leitura e nesse sentido é
complicado. Os custos de produção são elevados e
para a maioria dos nossos compatriotas é difícil
aceder aos livros, mas, a Casa da Cultura está
fazendo uma campanha nacional em prol do livro e da
leitura e está publicando livros em várias
coleções com um preço absolutamente módico, que
quase não arca com os custos, mas temos o apoio do
Governo».
Expectativas?
«Sabemos que em Cuba não era possível vender
estes livros, decidimos que tudo seria com caráter
de exposição para fazer promoção da presença e
do pensamento nacionais, e quando a Feira concluir,
todos os livros (1 500) serão doados à Casa das
Américas e à Biblioteca Nacional José Martí.
Essa
é nossa expectativa, que tudo seja difundido a
nível do povo cubano».
Durante
o percurso pela exposição da arte andina, o
presidente da Câmara Cubana do Livro, Jorge Luna,
convidou o Granma Internacional para
participar da conversação com Francisco Parejas,
delegado pessoal do secretário-geral da Comunidade
Andina das Nações.
Parejas
foi um dos oradores na cerimônia de inauguração
da Feira, onde marcou presença o presidente Fidel
Castro e onde o ministro da Cultura, Abel Prieto, se
referiu a quanto tem crescido o encontro do livro
«até virar, mais do que evento comercial,
verdadeira festa da cultura, que faz parte da
revolução educacional e cultural atual».
Em sua
conversa na sala Carlos J. Finlay, Parejas expressou
que a Comunidade Andina tem 115 milhões de
habitantes, mas, destes 54% vivem na pobreza.
Explicou
algumas estruturas da Comunidade como o Parlamento
Andino e o Banco de Cooperação Andina de Fomento,
mas, advertiu acerca da necessidade de fortalecer a
cooperação.
«Em
2005, é a data limite para acabar o processo de
integração andina. Coincide com a data da Alca,
que é uma espécie de Espada de Dâmocles ou de
pressão, mas nos tem ajudado muito à integração
que se torna cada vez mais urgente, tanto a andina
quanto a latino-americana toda».
O
delegado andino também falou da integração
cultural e pôs como exemplos a Universidade Andina
(com sedes em Sucre, La Paz e Quito) e um projeto de
História Andina «que infelizmente tem sido a causa
das guerras entre nós. Não é fácil escrever uma
história comum, portanto o projeto é uma
verdadeira contribuição à cultura da
integração».
O
LIVRO DA AMIZADE
Quando
acabou a conversa de Parejas, voltamos rapidamente
para a Rua Mayor, pois na antiga Capela da Fortaleza
de San Carlos de la Cabaña, muito bonita em seu
estilo barroco, teria lugar o lançamento, pela
editora La Memoria, na coleção Homenajes, (do
Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau) do livro
De nube en nube, de Luis Rogelio Nogueras,
Witchy (1945-1985).
Tudo
começou igual que numa capela, um silêncio
reverente para escutar uma gravação onde o
próprio Witchy lê seu poema Ama al cisne
salvaje, e depois escutar outro poeta, Silvio
Rodríguez, com a canção La tonada inasible, que
dedicou ao amigo (« Há quinze segundos/que o poeta
morreu/ e há quinze séculos/ que notamos sua
ausência»).
O
diretor do Centro Cultural Pablo, Victor Casaus,
explicou que se trata dum livro que tem a ver com a
memória, pois resgata os textos jornalísticos, as
crônicas de Luis Rogelio Nogueras «que não é
obra menor, mas sim que fala das suas raízes, com
muito talento» e acrescentou que o livro foi
possível pela participação de muitos amigos.
Além
de poder ler os artigos de Nogueras, no De nube
en nube incluem-se textos de Silvio e Casaus e
uma cronologia da vida e da obra de Witchy.
PRÊMIO
NACIONAL DE LITERATURA 2002
Na
sala Nicolás Guillén teve lugar um momento
importante para a cultura cubana: a entrega do
Prêmio Nacional de Literatura 2002 a Lisandro
Otero, cerimônia onde estiveram presentes o
presidente do Parlamento de Cuba, Ricardo Alarcón;
o ministro da Cultura, Abel Prieto e inúmeras
personalidades da cultura cubana.
Em seu
discurso de agradecimento, Otero lembrou que nos
últimos oito anos viveu no México. «Nessa etapa
peregrina sempre estive em Cuba, respirei nosso ar,
imaginei o horizonte de ‘yagruma’ em cada
paisagem. Tampouco deixei de apoiar o projeto de
nação que começou com os anos da Revolução».
Disse
que no começo, quando respondeu à imprensa acerca
da significação do prêmio para ele, dizia que era
«uma maneira de me agradecer pelo que tinha
feito... não só os livros, ma também a difusão
cultural. Depois pensei que o prêmio era uma forma
de ganhar consciência do muito que devo
agradecer».
Entre
esses agradecimentos, Otero cita a Universidade de
Havana, seus estudos na França, a luta clandestina,
Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, muitos amigos e
sua família.
«Também
devo agradecer a Fidel Castro por me ter ensinado a
pensar de maneira diferente, por me mostrar que
cuidar do bem alheio pode ser mais satisfatório que
atender o próprio, por nos ter levado com audácia
por um caminho cheio de obstáculos e
contradições, por nos ensinar o valor da firmeza e
do ímpeto incessante, por criar um espaço de
dignidade onde temos vivido com honra».
TESOURO
DE PAPEL
A
penumbra de uma noite de inverno dizia-nos que não
poderíamos chegar ao pavilhão Infantil Tesouro de
Papel, mas, lá se mantém para desfrute e
educação dos leitores mirins.
Acabou
assim uma jornada qualquer em San Carlos de la
Cabaña, sede da Feira Internacional do Livro de
Havana.
O
fascismo posto ao nu no livro de Hugo Chávez
O
presidente Fidel Castro participou, em 2 de
fevereiro, do lançamento da segunda edição do
livro El golpe fascista contra Venezuela, com
discursos e comparecimentos do presidente desse
país, Hugo Chávez.
Realizado
pela Ediciones Plaza, o volume insere as reiteradas
denúncias do presidente venezuelano, inclusive seu
discurso recente no 3º Fórum Social Mundial de
Porto Alegre, Brasil.
O
chanceler cubano Felipe Pérez Roque disse que o
referido texto era uma arma de combate e de
pensamento, destacando que hoje o golpismo está
totalmente derrubado nessa nação, graças ao
heroísmo do povo venezuelano, liderado por Hugo
Chávez.
Pérez
Roque refletiu acerca dos fatos ocorridos em abril e
dezembro passado na pátria de Bolívar e precisou
que nessa nação vem sendo analisada a solução
dum conflito, não só para a Venezuela, mas também
para a América Latina.
«Cada
vez será mais difícil impor a esse povo os
desígnios e interesses das multinacionais e da
oligarquia», expressou.
O
embaixador da Venezuela em Havana, Julio Montes,
destacou que a batalha contra o golpismo foi
definitivamente ganha. Explicou que já foi suspenso
o que os golpistas erradamente chamaram de greve, o
que constitui uma declaração de derrota, e ao
mesmo tempo destacou o aprofundamento do processo
bolivariano.
Publicado
em tempo recorde em duas ocasiões, apena 48 horas,
este testemunho sobre a verdade ocorrida nessa
nação, representou o surgimento da editora
Ediciones Plaza, que levou a termo este projeto por
iniciativa do presidente Fidel Castro.
Pedro
Alvarez Tabío, diretor dessa
editora, anunciou que está sendo preparada essa
edição ampliada em inglês, francês, italiano,
alemão russo e árabe.
O
presidente Hugo Chávez elogiou de Caracas a
edição do livro, feita em Cuba, noticiou a Prensa
Latina. O chefe do Estado parabenizou a rapidez
com a qual foram incluídas no dito volume suas
últimas intervenções públicas. •
Pies
de Foto...
Um
público nutrido participa da festa do livro em San
Carlos de la Cabaña
O
presidente Fidel Castro durante a inauguração da
Feira. À esquerda, o ministro da Cultura, Abel
Prieto
Pablo
Armando Fernández, Prêmio Nacional de Literatura,
a quem foi dedicada esta Feira
Exposição
de fotografias de Gabriel García Márquez
Os
livros infantis que traz Ediciones B são muito
solicitados
Na
Capela da Fortaleza Victor Casaus apresenta De
nube en nube
Paisagem
de Havana vista da Fortaleza
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