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C U L T U R A

Havana. 24 de Julho de 2012

Prêmio Nacional do Humor 2012

Mireya Castañeda

APENAS dois monólogos permitiram ao público apreciar que Osvaldo Doimeadiós é um ator ao qual não se pode colocar etiquetas. Aí está sua atuação extraordinária no imenso Santa Cecilia e seu já reconhecido humor sóbrio, reflexivo e comunicativo em Aquícualquier@.

Agora que recebeu, mais que merecidamente, o Prêmio Nacional do Humor 2012, reconhecimento do Ministério da Cultura e o Conselho Nacional das Artes Cênicas e do Centro Produtor do Humor, resgatamos esta entrevista realizada depois da estreia desse último monologo, onde o popular ator revisita alguns de seus mais populares personagens da televisão, Margot e Feliciano, com outros de recente criação.

Durante aproximadamente uma hora e meia, Doimeadiós, tira literalmente seus personagens da mochila, muda de roupa diante do público, dialoga e reflete com ele sobre temas da atualidade cubana, que são também universais, unindo o humor branco, a sátira, o costumbrismo e a música.

Cruce de Calabazas?

Osvaldo Doimeadiós nasceu em Holguín (26/11/1964) e não em Cruce de Calabazas, lugar surgido de uma “piada casual”. Contou ter sido “um menino extremamente doentio” e para passar o tempo, me enchiam de livros. Era muito pequeno e li Bocagem”.

Muito cedo, começou a atuar na radioemissora de sua cidade natal, nada menos com Cumbres Borrascosas, que lhe criou “uma certa disciplina, um certo respeito e também, uma ética”.

Depois, viriam as escolas de arte (não seria músico, mas ator) e a entrada no Instituto Superior de Arte (ISA). Ali, “em 1987, estando no quinto ano do curso, montamos o grupo Sala-manca, sem nenhuma pretensão de importância, mas com a sã intenção de divertir-nos e divertir, em primeiro lugar aos internos”. Sala-manca existiu até 1997, um grupo que realizou um trabalho teatral, com piadas agudas e não comentários burlescos sobre temas do momento.

No ano de 1990, Doimeadiós e outros fundaram o Centro Promotor do Humor, estimulando em toda a Ilha, a criação de um humor diferente do ponto de vista conceitual, profissional e artístico.

O ator tornou-se humorista e muitos não o perdoam por ter abandonado o drama, como agora não o perdoam o regresso ao humor. Mas Doimeadiós pensa muito claramente: “Eu me considero ator. Não gosto de separar os ramos da árvore”.

Que tempo precisou para preparar Aquícualquier@, um espetáculo de quase duas horas?

“Creio que é preciso muito tempo. A gente vê os resultados de um trabalho e apenas vê o imediato, mas este é um trabalho que fiz para uma produção com a EGREM, um DVD, um espetáculo de humor, e tratei de incluir coisas recentes, mas que fosse uma viagem através de meus personagens, de situações nas quais me envolvi no humor destes 20 anos, sem amarrar-me à cronologia, mas com uma coerência que a própria história me servisse para ir entrando ou não nalgumas coisas. O espetáculo como tal, eu o preparei em cinco meses, incluindo as letras das canções. David Álvarez fez a produção musical. Tratei de equilibrar o trabalho onde estivessem presentes diversas maneiras de abordar o humor, desde o humor branco, as piadas populares, o humor negro, a sátira social e política que o público precisa e que tínhamos evitado durante tantos anos, e creio que é importante fazê-la porque é um mecanismo que o espectador tem para tirar o peso de cima.

“A sátira é uma filha legítima do humor e é preciso mostrá-la e combiná-la. Tudo isso dentro um espetáculo que tivesse um projeto visual, de cenografia, de vestuário, por mais simples que seja, porque muitas vezes, os espetáculos que vemos têm, às vezes, boas intenções e propostas, mas não conseguem porque têm um projeto deficiente, porque outros elementos que formam a encenação não confluem bem. Tratei de cuidar tudo e, nestes cinco meses de trabalho, todas as coisas se integraram”.

Alguns consideram que o cubano ri, caçoa, mas não é reflexivo. Como você pensa?

“Efetivamente, talvez a média dos cubanos tem que ver mais com a caçoada, com não refletir a fundo, deixar sem profundidade, na superfície. Eu vejo o humor como algo que produz sentimentos, um bem espiritual; não concebo um espetáculo de humor no qual as pessoas ficam bravas, lacerada, lastimadas, mas um humor que apele aos sentimentos mais nobres do ser humano e talvez, em alguns momentos, seja um pouco ferino, mas acredito que é preciso chegar a um limite e voltar com o espectador. Há espectadores que ficam na média e outros vão mais além, na reflexão e o fazem comigo. Acredito que é uma viagem em companhia, não a faço sozinho; é preciso criar uma confiança desde o princípio, para que depois me sigam às zonas onde eu quero que cheguem”.

Se tivesse que definir o humor que nasce...

“É difícil para mim. Será porque não gosto muito das classificações, trato de fugir delas. Quando saio para atuar, saio para jogar, com as palavras, a caracterização dos personagens, inclusive a música, para que o público desfrute”.

Osvaldo Doimeadiós é um nome chave da atuação em Cuba. Sabe, pode, desdobrar-se em diversos personagens, seja no drama (Fedra, Ceremonia para actores desesperados, Tartufo), ou no humor (La divina moneda e Hablando en cubano). Não gratuitamente, acaba de receber o Prêmio Nacional de Humor 2012. No dizer do júri, pelo “desempenho excepcional nesse campo”.

 

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